O Herói
Rafael R Herescu 2026
Antes que se erga,
algo nele já se curva.
Diante do que não criou,
do que não possui,
do que o excede.
Basta-lhe saber:
não é origem,
não é medida,
não é fim.
Nasce uma inquietação sem nome.
Algo nele sabe
antes que ele saiba.
Não o chama a permanecer o que é.
Exige o que nele
ainda não nasceu.
O chamado o conduz
ao limite de si.
Além dele,
o que pode destruí-lo
guarda o que pode transformá-lo.
Poderia recuar.
E atravessa.
O que o chama
também o julga.
Aquilo que é
já não basta.
Enfrenta o que poderia evitar.
Suporta o que poderia quebrá-lo.
A prova exige outro homem.
E o forja.
O corpo ganha peso.
O coração, profundidade.
Os olhos, noite.
A sombra, dentes.
O espírito, altura.
Até que aquele que podia ser devorado
aprende também a devorar.
E torna-se monstro.
Com a força,
desperta a fome.
A fera abre os olhos.
Não a mata.
Não a devolve ao sono.
Enfrenta aquilo que poderia possuí-lo
até poder possuí-lo
sem lhe pertencer.
Os dentes permanecem.
A fome perde o comando.
A espada não perde o fio.
Encontra uma mão.
A espada sob a mão.
A mão sob a consciência.
A consciência sob a Verdade.
Então o poder encontra seu fardo.
Poderia deixá-lo no chão.
E carrega.
A mão que empunhou a espada
aprende a sustentar.
Poderia conservar.
E oferece.
Aquilo que não pode perder
ainda o governa.
Aquilo que não pode oferecer
ainda não lhe pertence.
Conquista o poder
até tornar-se livre dele.
Só então vê
quão pouco via.
O horizonte recede.
Em outra altura,
a mesma Verdade
o chama.
Depois da espada,
o trono.
Resta vencer o vencedor.
A fera obedece.
Agora é julgado
quem a governa.
Nem a obediência o governa,
nem a rebeldia.
É fiel ao Bem
acima de ambas.
Não entrega ao trono
sua consciência.
Não inventa o Bem.
Até quem é fiel ao Bem
pode desejar refazê-lo
à própria imagem.
Quem julga
permanece sob juízo.
A Verdade não nasce de sua certeza.
A mão que governou a espada
alcança o mundo.
Não o toma.
Do caos, extrai forma.
Na ordem petrificada,
abre possibilidade.
O Logos força a passagem
por sua mão —
não a partir dela.
Algo nasce
sem sua mão.
Algo termina
sob a mão
que ainda o sustenta.
Nem tudo que alcança
lhe cabe.
Quanto mais vê,
menos se toma por medida;
quanto mais pode,
menos se toma por origem;
quanto mais próximo de Deus,
mais longe sua mão alcança —
e menos pretende ser deus.
Cada altura cobra
aquilo que a anterior ainda permitia conservar.
Mais de si para oferecer.
Poderia recuar —
atravessa.
Poderia abandonar —
carrega.
Poderia conservar —
oferece.
E onde julgava haver chegada,
ouve novamente.
Algo nele sabe
antes que ele saiba.
Então se ergue.
O horizonte recede.
E quanto mais alto se ergue,
mais fundo se curva
aquilo que nele sabe.

